A maioria das pessoas prefere se ocupar com alguma tarefa, mesmo que desagradável. A possibilidade de um encontro com o tédio, a sensação de tristeza, de falta incomodam e são evitados a qualquer custo. Vem a tona também a culpa pelo desperdício de tempo e a sensação de que a cabeça desocupada consiste em uma espécie de perigo. Parte dessa sensação vem da cultura. A moldura capitalista impõe que toda ocupação deve ter uma utilidade; o “cabeça vazia, oficina do diabo” ensina que quando estamos desocupados, o demônio ocupa-se por nós.
Para os gregos, o ócio era bem visto e considerado a gênese da escola — um lugar onde se aprende e se ensina. Aristóteles dizia que o ócio é quando estamos livres da necessidade de trabalhar e temos a oportunidade de pensar na vida. Para os romanos, ócio é otium que significa “estou bem”. Mas a sua boa reputação ficou por aqui. Na sequência, o pensamento judaico-cristão, condenava abertamente o ócio. Foi num momento de ociosidade — quando não seguiu o seu exército — que o grande rei David cometeu o maior do seus pecados. Veio a varanda contemplar o firmamento e viu uma bela mulher. Tratava-se de Bate-Seba casada com Urias. David fez com que Urias fosse morto na frente de batalha para ficar com ela. E os comentadores da bíblia consideram esse episódio como um duplo pecado. Foi o estado de ociosidade que levou David ao pecado.


